INTRODUÇÃO
Apesar de diversas estruturas provocarem dor lombar, acredita-se que a degeneração do disco intervertebral seja a causa mais comum de lombalgia. A identificação da origem da dor é fundamental para planejar o tratamento. Para ajudar no diagnóstico, podem ser utilizados os recursos de radiografias dinâmicas, ressonância magnética e, inclusive, procedimentos invasivos, tal como a discografia lombar1.
Uma vez que o disco intervertebral foi identificado como fonte primária da dor, seria lógico afirmar que a sua remoção e a estabilização do segmento resolveriam a dor do paciente. Um dispositivo intersomático seria responsável por manter a altura e o alinhamento do segmento de onde o disco foi removido e, para tanto, várias opções estão disponíveis, como enxertos ósseos e espaçadores sintéticos. Esta estabilização intersomática pode ser realizada pela via posterior, tanto pela linha média como pela via póstero-lateral ou pela via anterior.
A via posterior tem a vantagem de ser mais familiar ao cirurgião de coluna e evitar complicações da via anterior, como lesões vasculares, ejaculação retrógrada e aderências abdominais; entretanto, tem como desvantagens maior morbidade e maior taxa de complicações, incluindo lesões durais, lesão neural, sangramento excessivo, fibrose epidural e aracnoidite2,3. Outras desvantagens incluem a dificuldade para completa remoção discal e preparação adequada da placa vertebral quando não há visualização do espaço discal na íntegra. Há evidência experimental de que a persistência de material discal residual é um fator para desenvolvimento de pseudoartrose4-7.
A artrodese lombar por via anterior tem como vantagens a preservação da musculatura posterior, preservação do canal vertebral, sem retração dural ou radicular, e maior facilidade de remoção discal e preparação da placa vertebral para artrodese.
Atualmente, técnicas minimamente invasivas passaram a utilizar a abordagem transforaminal para acessar o disco intervertebral por via posterior sem violar o canal vertebral, opção que teoricamente evita os riscos da via anterior, preserva a musculatura paravertebral (por utilizar a abordagem póstero-lateral), e que pode ser realizada de um lado apenas. Não há, entretanto, estudos que demonstrem a eficácia dessa abordagem em esvaziar o espaço intervertebral, criando um ambiente propício à consolidação óssea.
O objetivo deste estudo foi quantificar o volume de disco intervertebral removido pela via transforaminal.
MÉTODOS
Neste estudo, foram utilizados cinco cadáveres humanos frescos do Laboratório de Anatomia Humana da Pontifica Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), com idade aproximada de 40 anos, e que foram submetidos à discectomia lombar pela via transforaminal nos níveis L3-L4 e L4-L5. O espaço discal L5-S1 não foi incluído no estudo, pois, para expor este nível pela via transforaminal, há, em alguns casos, necessidade de osteotomia da asa do sacro, com dano excessivo ao espécime anatômico.
Os cadáveres foram posicionados em decúbito ventral, e o processo transverso de L4 foi exposto por abordagem póstero-lateral8 unilateral esquerda, identificação dos níveis L3-L4 e L4-L5 por meio da palpação da asa do sacro, processo transverso de L5 e de L4. O espaço intertransverso cranial e caudal a L4 foi dissecado, e os espaços discais foram expostos, com remoção do terço externo da faceta articular (Figura 1). O ânulo fibroso foi incisado, com abertura de uma janela retângular e remoção do conteúdo discal, utilizando pinças de disco e curetas anguladas, projetadas para discectomia transforaminal (Figura 2). Uma vez que não fosse possível remover mais material discal, o cadáver era reposicionado em decúbito dorsal e submetido a um acesso anterior, com exposição do corpo verebral de L4, abertura do ânulo fibroso dos discos L3-L4 e L4-L5, e remoção de todo o material discal residual por meio de visão direta.




Em cada nível, todo material discal removido pela via posterior foi pesado e, posteriormente, foi realizada pesagem do material discal removido pela via anterior (Figura 3).
RESULTADOS
No disco L3-L4, o material removido pela via transforaminal pesou, em média, 5,94 g (48,85% do total); o material residual, removido por via anterior, pesou 6,22 g (51,15% do total). No disco L4-L5, o tecido removido pela via transforaminal pesou 5,18 g, em média (38,77% do total) e, pela via anterior, 8,18 g (61,22% do total) (Tabela 1, Figura 4).
Material discal
Os autores evidenciaram, pela via anterior, que o tecido discal residual concentrava-se não apenas no lado oposto ao acesso, mas, principalmente, na região anterior do disco intervertebral.




