Dr. Túlio Rangel

Artigo Original/Original Article/Artículo Original


Avaliação estético-funcional dos portadores de escoliose idiopática do adolescente à instrumentação com implante metálico de Cotrel-Dubousset

Aesthetic and functional results of adolescent idiopatic scoliosis treated with Cotrel-Dubousset implants

Osmar Avanzi¹ Lin Yu Chih² Robert Meves³ Maria Fernanda Silber Caffaro⁴ Túlio Albuquerque de Moura Rangel⁵

RESUMO

Objetivo: o objetivo deste estudo foi avaliar os resultados estético- funcionais dos pacientes portadores de escoliose idiopática do adolescente submetidos ao tratamento cirúrgico com o implante metálico de CD. Métodos: foram selecionados 12 pacientes e classificados segundo os critérios de King. Por meio de radiografias, foram mensuradas as curva primária e secundária da deformidade. Em relação à avaliação funcional, foi aplicado o questionário da Scoliosis Research Society (SRS). Resultados: todos os pacientes eram do sexo feminino, com média de idade de 14 anos, tendo acompanhamento médio de 91 meses. A média de correção da curva primária foi de 54 % com perda de 10 %. Quanto à curva secundária, a média de correção inicial foi de 56 % com perda de 15 %. A média do SRS foi de 97 pontos. Conclusão: nesta série de pacientes o tratamento cirúrgico dos pacientes portadores de escoliose idiopática do adolescente com CD mostrou resultado estético-funcional satisfatório.

ABSTRACT

Objective: the main goal of this study was to evaluate, functionally, and conmetically, the surgical treatment with CD implants, in patients with adolescent idiopathic scoliosis. Methods: 12 patients were submited and classified according to King´s criteria. Through the radiographs, were measured the primary and secondary curves. Yet, it was applied the Scoliosis Research Society questionnaire (SRS) to all the patients. Results: all patients were female gender with an age average of 14 years and the mean duration of follow-up was 91 months. There was an average correction of the primary curve of 54% with loss of 10%. As for the secondary curve, the initial average of correction was of 56% with loss of 15%. The average score was 97 points. Conclusion: the surgical treatment of adolescent idiopathic scoliosis’ patients with CD implants presented good results .

DESCRITORES: Escoliose; Adolescente; Procedimentos ortopédicos/ instrumentação; Resultado de tratamento
KEYWORDS: Scoliosis; Adolescent; Orthopedic procedures/instrumentation; Treatment outcome


Trabalho realizado no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (DOT-FCMSCSP)

¹Professor Doutor Adjunto e Chefe do Grupo de Coluna do DOT-FCMSCSP – Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP), Brasil.

²Médico Assistente do Grupo de Coluna do DOT-FCMSCSP – Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP), Brasil.

³Professor Doutor; Instrutor e Médico Assistente e do DOT-FCMSCSP – Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP), Brasil.

⁴Médica Assistente do Grupo de Coluna do DOT-FCMSCSP – Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP), Brasil.

⁵Médico Estagiário do Grupo de Coluna do DOT-FCMSCSP – Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP), Brasil.

INTRODUÇÃO

A utilização do implante metálico de Cotrel-Dubousset (CD)1, a partir de 1983, resolveu desvantagens descritas das técnicas até então utilizadas, como a diminuição dos níveis incluídos na artrodese1-4. Porém, diversos autores contestam o impacto deste instrumental no resultado funcional dos pacientes, mesmo quando comparados ao implante metálico de Harrington5-6. O equilíbrio do tronco com o uso do implante de CD também é um aspecto importante na avaliação estética dos resultados do tratamento da escoliose idiopática do adolescente7-9.

A necessidade de um instrumento de avaliação mais funcional do portador de escoliose idiopática do adolescente submetido ao tratamento cirúrgico levou à criação de questionários, como o da Scoliosis Research Society (SRS)10 que avaliam os seguintes domínios: dor, auto-imagem geral, auto-imagem pós-operatória, função geral, nível de atividade, função pós-operatória e satisfação com o tratamento. King et al.11,em 1983, e recentemente Lenke 12,em 2001, procuraram agrupar as curvas para facilitar o planejamento cirúrgico nestes pacientes.

O objetivo do presente estudo é avaliar o resultado estético- funcional nos portadores de escoliose idiopática do adolescente submetidos ao tratamento cirúrgico com implante metálico de CD de acordo com dados de prontuário, radiografias e o questionário preconizado pela SRS.

MÉTODOS

Foram avaliados 12 pacientes portadores de escoliose idiopática do adolescente submetidos ao tratamento cirúrgico com implante metálico de CD, entre 1993 e 2004, no Departamento de Ortopedia e Traumatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, após aprovação pelo Comitê de Ética e Pesquisa dessa Instituição. Esta avaliação constou da revisão dos prontuários do Serviço de Arquivos Médicos (SAME) da Faculdade da Santa Casa de São Paulo, assim como radiografias pré-operatória e pós-operatória.

Todos os pacientes foram submetidos à artrodese e instrumentação metálica com abordagem por via posterior e com montagem de ganchos fixados sobre duas hastes e dois conectores entre elas. Não foi realizada manobra derrotativa em nenhum dos casos e em todos os pacientes foi realizado o teste de despertar de Stagnara13 após a correção intra-operatória. Em todos, também foi realizada artrodese tipo Hibbs- Moe14 e colocação de enxerto de ilíaco. Dissectomia na convexidade foi realizada como primeira etapa do procedimento em um caso, devido à rigidez das curvas como indicado nos testes dinâmicos, a fim de permitir uma melhor correção cirúrgica com a instrumentação por via posterior.

Por meio da revisão das radiografias panorâmicas ortostáticas pré-operatório, pós-operatório imediato, último seguimento pós-operatório e perfil foram mensurados o ângulo de Cobb15 da curva principal e secundária e a cifose torácica da quarta à décima segunda vértebra torácica. As curvas foram classificadas segundo King et al.11 que as divide em cinco tipos: I. Curva lombar maior e menos flexível que a curva torácica; II. Curva torácica maior e menos flexível que a curva lombar; III. Curva torácica com curva lombar que não cruza a linha média; IV. Curva torácica longa com a quarta vértebra lombar inclinada; e V. Dupla curva torácica com a primeira vértebra torácica inclinada. O equilíbrio do tronco (distância entre a linha sacral média longitudinal e o centro da primeira vértebra torácica) foi considerado normal quando igual ou inferior à 20 mm segundo os critérios de McCance et al 9.

Em 12 pacientes foi aplicado o questionário da SRS10 que consta de 24 questões referentes à dor, auto-imagem geral, auto-imagem pós-operatória, função geral, nível de atividade, função pós-operatória e satisfação. A pontuação máxima é 120 e dura em média 5 minutos.

RESULTADOS

Todos os pacientes do estudo eram do sexo feminino e apresentavam uma média de idade no momento da cirurgia de 14 anos variando de 11 a 17 anos. A queixa principal era estética. O tempo médio de seguimento foi de 91 meses variando de 27 a 132 meses. Dos 12 pacientes, 10 foram acompanhados por mais de cinco anos. Segundo a classificação de King1 a maioria dos pacientes foram classificados como tipo II (Tabela 1).

A curva principal apresentou valor médio do ângulo de Cobb de 60° variando de 44° a 76° e a curva secundária de 40° variando de 25° a 72° nas radiografias pré-operatórias.

A Tabela 2 ilustra a média dos valores das curvas principal e secundária no pré-operatório, pós-operatório imediato e no último acompanhamento, assim como a taxa de correção alcançada e a perda da correção.

Com relação à cifose, o valor médio do ângulo de Cobb no pré-operatório foi de 20° variando de 2° a 40° e na última avaliação pós-operatória foi de 25° variando de 8° a42°. Verificamos descompensação do tronco em cinco pacientes na avaliação pré-operatória. Destes, três foram classificados como King III, um King II e um paciente como King IV. Nenhum paciente manteve a descompensação após o tratamento cirúrgico.

No último acompanhamento pós-operatório, o equilíbrio do tronco apresentou valor médio de 18mm, variando de 3 mm a 33 mm. Seis pacientes não estavam compensados, conforme o critério de McCance et al 9 (valor médio de 29 mm). Destes, três foram classificados como King II, dois, King III e um King I. O valor médio do equilíbrio do tronco nos pacientes compensados foi de 7mm.

O valor médio do questionário do SRS foi de 97 pontos, variando de 83 a 107 pontos. A média do SRS dos casos descompensados foi de 95.5 pontos e a dos compensados de 98.3. Todos estavam satisfeitos ou muito satisfeitos com o tratamento: 10 atribuíram as notas 7, 8 ou 9 quanto à autoimagem e 7 referiram atividades diárias completas sem restrições. Constatamos, ainda, que a descompensação de tronco não interferiu com os resultados estético-funcionais para o paciente de acordo com o SRS (p<0,05, teste de Mann- Withney).

Em três pacientes foram relatadas complicações: soltura do material de síntese (1 paciente) e proeminência do material de síntese com bursite sobre o implante (2 pacientes) que foram resolvidos com a retirada do implante após consolidação da artrodese.

Nas Figuras 1 e 2 observamos o caso de uma paciente do sexo feminino de 17 anos portadora de escoliose idiopática do adolescente, King tipo III, com curva torácica flexível de 50° e tronco descompensado para a esquerda. Na ocasião queixava-se de deformidade. Foi submetida à artrodese posterior da curva torácica com correção para 18°. Pode-se observar o resultado estético com Defino HLAnivelamento dos ombros e compensação do tronco no pós-operatório de um ano e nove meses.

DISCUSSÃO

Os pacientes desta série eram do sexo feminino e apresentaram uma média de idade na ocasião da cirurgia (14 anos), dados similares aos estudos que abordaram estes pacientes cirurgicamente5-6,8. Correção no plano coronal entre 50 e 60% da deformidade, com perda de cerca de 10% da correção, também foi reportado por outros autores 2,5.

Thompson et al.8 com base em 30 casos verificaram descompensação média do tronco de 27 mm em 14 pacientes. Destes, nove foram classificados como King II. O autor justifica tal descompensação pela invasão de segmentos móveis na região lombar. Entretanto, McCance et al9,com 67 portadores de escoliose idiopática do adolescente tipo King II submetidos à artrodese seletiva torácica, constataram 20 pacientes descompensados, discutindo outras prováveis causas desta complicação. Nenhum paciente ultrapassou 38 mm de descompensacão radiográfica.

Similarmente aos nossos achados, Helenius et al.6 relataram uma pontuação média de 97 pontos no questionário da SRS aplicado aos seus pacientes após o tratamento cirúrgico com o implante metálico com ganchos e barras de CD.

No nosso estudo, o valor médio quanto ao equilíbrio do tronco foi de 18 mm, o maior desequilíbrio foi de 33 mm e metade dos pacientes foram considerados descompensados. Porém, como demonstrado pelo questionário do SRS, o desequilíbrio do tronco não demonstrou impacto funcional sobre estes pacientes. As questões referentes à auto-imagem e satisfação geral com o tratamento apresentaram resultados semelhantes tanto nos pacientes compensados como nos descompensados.

Apesar de destacado por diversos autores1,5-6 , fratura da lâmina, lesões neurológicas ou pseudoartrose sintomática não configuraram entre as complicações do grupo em estudo. Entretanto, foi observado soltura do material de síntese (1 paciente) e proeminência do implante com bursite (dois pacientes) o que exigiu uma reintervenção cirúrgica para retirada do material de síntese após consolidação óssea.

CONCLUSÃO

O tratamento cirúrgico dos pacientes portadores de escoliose idiopática do adolescente com o implante metálico de Cotrel-Dubousset com ganchos e hastes está associado a alto grau de satisfação com o tratamento segundo o questionário do Scoliosis Research Society, mesmo naqueles pacientes que apresentaram desequilíbrio do tronco.

 

REFERÊNCIAS

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3. Lenke LG, Bridwell KH, Blanke K, Baldus C, Weston J. Radiographic results of arthrodesis with Cotrel- Dubousset instrumentation for the treatment of adolescent idiopathic scoliosis. A five to ten-year follow-up study. J Bone Joint Surg Am. 1998; 80(6):807-14.

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7. Bridwell KH, Betz R, Capelli AM, Huss G, Harvey C. Sagittal plane analysis in idiopathic scoliosis patients treated with Cotrel-Dubousset instrumentation. Spine. 1990; 15(9): 921-6.

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9. McCance SE, Denis F, Lonstein JE, Winter RB. Coronal and sagittal balance surgically treated adolescent idiopathic scoliosis with the King II curve pattern. A review of 67 consecutive cases having selective thoracic arthrodesis. Spine. 1998; 23(19):2063-73.

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11. King HA, Moe JH, Bradford DS, Winter RB. The selection of fusion levels in thoracic idiopathic scoliosis. J Bone Joint Surg Am. 1983; 65(9):1302-13.

12. Lenke LG, Betz RR, Harms J, Bridwell KH, Clements DH, Lowe TG, Blanke K. Adolescent idiopathic scoliosis: a new classification to determine extent of spinal arthrodesis. J Bone Joint Surg Am. 2001; 83- A(8):1169-81.

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14. Moe JH, Winter RB, Bradford DS, Lonstein JE. Scoliosis and other spinal deformities. Philadelphia: WB Saunders; 1978.

15. Cobb JR. Outline for the study of scoliosis. Instr Course Lect. 1948; 5: 261-75.

AUTOR

Dr. Túlio Rangel

Dr. Túlio Rangel é formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas (UPE) em 2000 e Residência Médica em Ortopedia e Traumatologia pelo Hospital Getúlio Vargas (Recife - PE) em 2004. Ele iniciou sua especialização em Cirurgia da Coluna Vertebral pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo - SP em 2004/2005, foi estagiário em Cirurgia da Coluna Vertebral pela AACD (São Paulo - SP) em 2005 e foi FELLOW em Cirurgia da Coluna Vertebral pelo AOSpine Fellowship – Hospital Cajuru (PUC Curitiba - PR) em 2006/2007. Ainda, realizou o “AOSPINE Short-term Fellowship” no Orton Orthopaedic Hospital & Research, Helsinki (Finlândia) em 2008.

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